sexta-feira, 25 de julho de 2008

É divertido porque já passou

Eu tenho que vos contar, tenho um trauma renal, tenho, sim senhor.
Não sei se alguma vez tiveram a sensação prolongada de que vão morrer. Eu tive e bem prolongada e tenho efectivamente que falar disto. Vou fazer psicanálise aqui convosco.
Vamos lá então...lights off.
Este ano, um belo dia, acordo para trabalhar e senti que ia morrer. Tão simplesmente assim. Senti que a vida me escapava não por entre os dedos, mas por entre os rins. Acordei então com uma dor lancinante que me fez pensar "são assim os fins dolorosos minha menina".
Só tive tempo de me vestir para o meu funeral. Vesti umas jardineiras, meti-me no carro, vi-me ao espelho do elevador e pensei outra coisa: "vou morrer e vão pensar que sou o Shrek, estou igual a ele". Já no carro, escolhi a rfm e lembro-me que estava a dar o odioso André Sardet. Pensei outra vez "tudo faz sentido, até esta música para o meu fim."
Como loira que sou decidi adiar o meu calvário e ir para um Hospital que não tinha urgências. Sabia lá eu...! Eu só queria não morrer a ouvir o Sardet, isso é que não!!
Retomo o caminho, agora em direcção ao Santa Maria e em contacto com o meu pai "pai não-sei-o-que-tenho-é-uma-dor-que-AH-MEU-DEUS-...-Deus-meu-Nossa-Senhora-Senhora-Nossa- Deus-Pai-Todo-o-Poderoso-Meu-Deus ( e a minha conversa já só era do trato religioso).
O meu irmão e cunhada já vão chegar em meu auxílio. Sim porque eu ia morrer.
Apanho-me em Telheiras e abandono o carro para vomitar pela última vez na minha vida. Vomito em frente a uma escola. Os pais a deixarem os filhos e fitavam-me com o aperto de nunca os quererem ver no meu estado, ainda embriagada de bacardis lemon (eu também pensaria isso, é um facto).
Marco o 112- tantas vezes gozei com este número...-a senhora não entendia que eu ia morrer, mas acabava de chegar o meu Inem particular "filhos vou morrer", pensei de novo.
Lá chega a ambulância. Deitada na maca pensava (sim, pensei muito neste dia) "que ao menos chegue ao matadouro e me possam deitar sossegadinha sem esta sensação de montanha-russa".
- Oh senhora Rosário é a primeira vez que sente isto?
Senti-me tão chicoteada, então mas poder-se-á lá sentir muitas mais vezes que se vai morrer?!!! Respondi como um cão:
- acabem-me com isto, meu deus...! (não conseguia abandonar o dialecto mais cristão).
Chego às masmorras do Santa Maria, fui picada umas quantas vezes, eu que tanto medo tenho dessas coisas, sentia que me podiam transformar numa rede de pesca, cheia de furos. Já não queria saber, só via o deboche daquele hospital com o meu irmão a fazer envergonhar o melhor enfermeiro.
Eu olhava para o tubo do soro e percorria todo o leque de palavrões que conhecia. O soro no fim, as horas passavam e a vida continuava em mim. Pensava se aquela espera já era o purgatório. Até no purgatório esperamos....BOLAS!
Metem-me outro tubo de soro, mais umas eternidades a agonizar na minha derradeira existência e comecei a sentir Deus, Jesus, os santos todos à minha volta. Levantei-me da maca, demos todos as mãos e riamos muito "caramba malta, foi defícél , mas vá lá que valeu a pena!".
Estava no céu e já não distinguia quem era Deus, quem era o Santo António, quem era o Ghandi. Eram todos tão lindos.
E foi assim que saí do Santa Maria, com os grandes divinos a levarem-me em ombros, enquanto hurravam o meu nome e eu apercebia-me de como era maravilhoso o cheirinho a escape.
Cheguei a casa e fui a sorrir para os meus lençóis, que lençóis lindos, olha-ali-a-tua-secretária-Rosarinho-olha, que secretária linda, tudo lindo.
Assim sim, assim vale a pena viver.

5 comentários:

Anónimo disse...

o melhor post!
beijos

Anónimo disse...

O Blog da Rosa nos meus favoritos.
Amei!

Anónimo disse...

eu lembro-me deste trauma, parecias um cristo! tadinhaaaaa e a trabalhar um dia depois! AH LEOA!

Anónimo disse...

Bless this blond!!! :-D

Anónimo disse...

Ainda me recordo do teu andar Robocopiano e aquela cor ainda amarelinho enjoo a entrares pela porta do escritório, com aquele olhar "MEREÇO ISTO??". Bjos da cata meu xuxuuuuuuuu