Estas primeiras chuvas são como uma coroa de espinhos na minha cabeça.
Não me chegam a deprimir, mas são uma espécie de formigueiro que me percorre o corpo de revolta. Revolta que me obriga a pôr uma lente menos positiva do que é costume.
Há 5 minutos atrás dei por mim, aqui, sentadinha em frente a uma papelada e uns emails, a sentir que algo de horrível e de triste se estava a passar na minha vida. Uma melancolia que era menina para chorar. Aquela sensação de quando estamos a dormir e acordamos em sobressalto porque algo de angustiante se está a passar nas nossas vidas e não sabemos identificar nos primeiros segundos, acordei porque vou ser presa? acordei porque me vão amputar um braço? ah sim sim, vou ao dentista depois de almoço amanhã!, essa sensação de não identificar o que causa esta aceleração cardíaca de desânimo, mas que viro a cara para o meu lado esquerdo e entendo. Fiquei pasmada a olhar pela janela a chuva a gozar-me lá fora, aos gritos, em manada...
Como te odeio chuva, como me enervas, como me pões em transe, como me pões desgrenhada e ainda tenho de ouvir os está-muito-despenteada-hojeeee, como me fazes estar dentro do carro mais tempo a perseguir uma gota ridícula no vidro só porque quero esperar que ela chegue até às escovas do limpa pára-brisas e ver se entretanto ganhei mais coragem para te enfrentar, és um nojo, odeio-te e só os agricultores gostam de ti.


