O pior às vezes é mesmo nunca a perder.
Ter sempre presente que existem coisas muito importantes e maravilhosas que, no geral, nos fazem agarrar a vida com unhas e dentes. Ter sempre a capacidade de esquecer o horrível que é estar numa fila de trânsito nas vésperas de um exame da faculdade e sentir o estômago prestes a sair pela boca, o horrível que é ser-se adolescente (o que por si só já pode ser motivo mais que plausível) receber um telefonema às 10 da manhã de uma mãe ou pai, logo à noite já conversamos minha menina: acabaram-se as saídas este mês!!, agonizar o santo dia até ouvir a chave na porta de casa, o horrível que é o primeiro desgosto amoroso e ter a exactidão tão firme que aquele ser de 12 anos que anda à pedrada no carro do professor de matemática é o nosso amor da vida, o horrível que é começar a avistar a pauta onde poderá estar uma nota não desejada, o horror da zanga de um melhor amigo e os minutos antes de o vermos, o horror de entrarmos para o banho e acabar a água quente, o horror de nos perdermos de carro sem gasolina, e um sem fim de horrores que momentaneamente nos põem a ferver e pensamos que talvez o balançar na ponte 25 de Abril seja uma opção, mas só ali, naquele instantinho de desespero, e depois poderíamos "voltar". E vistas bem as coisas, tudo isto é secundário e passageiro.
Mas hoje eu quis ir e voltar.
Trabalhar até à hora de ir dormir, no belo do escritório, a preparar com afinco a coisa X. Vamos chamar-lhe assim, para não agoirar mais. Coisa X, pronto.
Dormir pouco, acordar, estar cansada logo a uma 3a feira, chegar ao belo do escritório (tu outra vez?), abrir o pc, abrir o pc...., não ver o documento no ambiente de trabalho (onde deveria estar), não o ver em mais recanto algum do disco rígido, do disco não-rígido...eu sei lá... a coisa X foi à vida dela, passar umas férias bem longe daqui. A informação que tinha em papel, tinha-a rasgado triunfalmente no dia anterior, aquando da conclusão da coisa X e, portanto, lixo.
Olá suores frios, olá engolir em seco, olá verbalização para os demais colegas, olá pânico!
Visões dos meus braços pendurados na estrutura metálica da ponte 25 de Abril, o vento a fazer-me ganhar balanço e a mandar-me por aquelas águas onde iria descansar sem pensar mais na coisa X.
A força de viver ali bem ao nível dos meus tornozelos.
Mas depois até que fica grande, até que vou falar com o senhor porteiro e perguntar onde poderá estar eventualmente o lixo, onde jazz o triunfo em papel de outrora.
Encarar o lixo das empresas alheias, encarar o lixo da empresa onde quis morrer hoje.
A força de viver agora ali bem ao nível de Plutão quando vi a papelada envolta em restos de café e leite alpro de soja já apodrecido (ainda bem que era teu minha Gui), agarrar no saquinho e dizer-lhe vou levar-te comigoooo!
Foi bonito. Haja saúde.
3 comentários:
ahahahhahha!já li isto há 10 min e ainda e estou a rir|!!
Oh meu deus! a cena de te imaginar ao pé dos contentores meia preocupada, meia descontraída (tu nunca entras em pânico verdadeiramente, pois não?! BITCH!), a babe com ar de surfista, com blazer e camisa, a rir e a pensar palavrões,com uma expressão séria, para não desatares a rir da tua própria figura na pesquisa do lixo empresarial! muito muito bom! bem haja a tua vida sempre tão cheia de slides destes!
Oh meu amor... quantos restos de comida não mandei eu já para o lixo... quanto lenço ranhoso não terá o lamb enviado já para o lixo pontuado com um ou dois pelinhos que nunca saberás se são das mãos ou do nariz... quantas migalhas do teclado... e tu vens queixar-te do meu leitinho alpro?!?!?!? Para a próxima hás-de perder qualquer coisa no lixo de um jardim de infância... só para aprenderes que o leite de soja é das melhores coisinhas do mundo!!!! (... desculpa...) **** gui-di
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